Em alucinação, Adélio Bispo revela desejo de disputar a eleição com Bonner como vice

Adélio Bispo de Oliveira, responsável pelo atentado à faca contra o então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018, voltou ao centro das atenções após a divulgação de um novo laudo psiquiátrico. O documento, elaborado por peritos a pedido da Justiça, aponta um agravamento significativo em seu estado de saúde mental, marcado por delírios de grandeza, ideias persecutórias e perda quase total de contato com a realidade. Detido desde o ataque ocorrido em Juiz de Fora, Minas Gerais, Adélio cumpre medida de segurança em uma penitenciária federal, onde sua condição parece ter se deteriorado ao longo dos anos.

O caso, que já havia provocado forte impacto político e social, volta a gerar debates sensíveis envolvendo saúde mental, sistema prisional e os limites das decisões judiciais em situações de inimputabilidade.

O atentado de 2018 e suas consequências políticas
O ataque cometido por Adélio Bispo em setembro de 2018 chocou o Brasil e alterou profundamente o curso da eleição presidencial. A facada atingiu Jair Bolsonaro em um ato público, exigindo cirurgias de emergência e afastando o então candidato da campanha de rua. O episódio ampliou a polarização política e levantou questionamentos sobre a segurança de candidatos e a violência no ambiente eleitoral.

Na época, Adélio alegou motivações políticas e religiosas para o crime. As investigações concluíram que ele agiu sozinho, sem ligação comprovada com partidos ou organizações. Posteriormente, laudos médicos confirmaram o diagnóstico de esquizofrenia paranoide, levando a Justiça a considerá-lo inimputável.

Inimputabilidade e medida de segurança
Ao ser considerado inimputável, Adélio Bispo deixou de responder criminalmente nos moldes tradicionais. Em vez de uma pena com prazo definido, a Justiça determinou a aplicação de uma medida de segurança, que prevê internação por tempo indeterminado enquanto houver risco à sociedade ou ao próprio paciente.

Esse tipo de decisão tem como base a proteção coletiva, mas também pressupõe tratamento médico adequado. Na prática, porém, Adélio foi encaminhado ao sistema penitenciário federal, permanecendo sob custódia rígida e isolamento prolongado, o que hoje é apontado como um fator agravante de seu quadro clínico.

Delírios de grandeza e perda de contato com a realidade
O laudo psiquiátrico mais recente foi elaborado no contexto de avaliações periódicas que analisam a possibilidade de progressão do regime ou eventual soltura. Durante as entrevistas, Adélio apresentou discursos considerados incompatíveis com a realidade, revelando delírios de grandeza e uma percepção distorcida de sua própria relevância política.

Entre as declarações registradas, ele afirmou que poderia se candidatar à Presidência da República, demonstrando uma autoestima exacerbada e sem qualquer base concreta. Em um dos trechos mais emblemáticos do laudo, Adélio mencionou nomes conhecidos da imprensa nacional como possíveis integrantes de sua chapa presidencial, citando o jornalista William Bonner e a apresentadora Patrícia Poeta.

Interpretação médica dos delírios
Para os peritos, essas afirmações são sintomas clássicos da esquizofrenia paranoide, especialmente dos chamados delírios persecutórios e de grandeza. Segundo o laudo, tais manifestações indicam uma piora do transtorno, com comprometimento severo da capacidade crítica e ausência de insight, ou seja, Adélio não reconhece sua própria condição mental.

Os especialistas apontam que o ambiente prisional, focado essencialmente em segurança, não oferece suporte terapêutico contínuo nem acompanhamento psiquiátrico adequado para casos graves como o dele. A ausência de tratamento efetivo e o isolamento prolongado são vistos como fatores que contribuem para o agravamento dos sintomas.

Sistema prisional versus tratamento psiquiátrico
Atualmente, Adélio está detido na Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, uma unidade projetada para presos de alta periculosidade. Embora ofereça rígido controle e vigilância, o local não funciona como hospital psiquiátrico de custódia, o que, segundo o laudo, limita as chances de estabilização do quadro clínico.

Os peritos recomendam a transferência para uma instituição especializada em saúde mental, onde seria possível conciliar segurança e tratamento médico adequado. O documento destaca que a permanência no sistema prisional, sem cuidados especializados, mantém elevado o risco de instabilidade psíquica e não favorece qualquer perspectiva de melhora.

Debate jurídico e desafios estruturais
Do ponto de vista legal, a inimputabilidade protege Adélio de uma condenação penal tradicional, mas também o submete a uma medida de segurança sem prazo definido. Essa situação levanta discussões sobre proporcionalidade, direitos humanos e a eficácia das políticas públicas voltadas à saúde mental no Brasil.

O caso segue sob monitoramento judicial, com avaliações periódicas que reavaliam sua condição e o grau de periculosidade. Em um contexto mais amplo, a trajetória de Adélio Bispo expõe os desafios da interseção entre saúde mental, política e justiça, mostrando como transtornos graves, quando não tratados adequadamente, podem gerar consequências individuais e nacionais de grande impacto.

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